Sara Catarina Ribeiro

A residir no concelho onde se registou o primeiro caso de COVID-19 em Portugal, em Lousada, Sara Catarina Ribeiro viu a sua estreia nos Jogos Olímpicos adiada. Depois de um primeiro momento “de tristeza”, a atleta, que ainda quer bater o seu recorde pessoal nos 10 000 metros, redefiniu objetivos e levantou a cabeça para olhar para Tóquio 2021 com outros olhos. Aqueles que lhe permitiram em Valência, a 1 de dezembro, ver a linha de partida da maratona olímpica no horizonte, enquanto entrava para o top 10 de melhores marcas nacionais femininas na distância-rainha.

 

TEXTO: Vanessa Pais (FPA)

FOTOS: DR (cedidas pela atleta)

 

 

Em 2h26m39s, na Maratona de Valência, em Espanha, a 1 de dezembro, bateste o teu recorde na distância-rainha e ficaste mais perto do sonho Olímpico. O que é que sentiste na altura?

Recordo-me que quando cheguei à meta nem me apercebi de que tinha alcançado a marca de qualificação para os Jogos Olímpicos. Claro que tinha o sonho de alcançar essa marca, mas quando me preparei para esta maratona, o objetivo era bater o meu recorde pessoal. Queria retirar alguns minutos às marcas que tinha feito até então na distância e alcançar um tempo que fizesse jus ao meu esforço e ao meu treino. Sabia que valia mais do que as 2h30, 2h33. Quando cheguei à meta e vi o meu treinador e disse-lhe: “Finalmente consegui!” Só passados alguns minutos é que me “caiu a ficha” de que tinha alcançado a marca de qualificação para os Jogos, mas mesmo assim tentei manter os pés bem assentes na terra, porque já aconteceu ter marca de qualificação, por exemplo para competições europeias e depois ter ficado de fora, porque uma colega conseguiu resultado melhor do que o meu. Temos ótimas maratonistas em Portugal, por isso, não me posso deslumbrar.

 

Depois o impensável aconteceu, com a pandemia COVID-19 a adiar o sonho. Como é que se gere um acontecimento destes?

No final de fevereiro, quando surgiram as primeiras notícias, não queria acreditar que fosse possível o cancelamento ou o adiamento dos Jogos. Ainda achava que isto não ia ser nada, que ia passar rápido e que íamos conseguir fazer a nossa vida normalmente. Infelizmente passados pouquíssimos dias apareceu o primeiro caso – e foi logo no meu concelho, na Lousada – e depois foi ver todas as competições a serem canceladas.

A confirmação oficial de que os Jogos de Tóquio seriam em 2021 atenuou a ansiedade, mas confesso que fiquei muito triste, porque foi aquela sensação de que fizemos tudo bem, conseguimos a marca e depois não vai haver competição. Queria que a minha estreia fosse o mais rápida possível, mas também queria que fosse feita em segurança e, por isso, tive de aceitar e adaptar-me. Sei que daqui a um ano vou estar mais velha, mas também terei mais treino. Sei que as minhas colegas vão ter mais oportunidades para alcançar a marca de qualificação, mas sei também que vão estar mais pressionadas, porque além da marca vão ter de fazer melhor do que eu e “os mínimos” já os tenho.

 

De que modo é que redefiniste os teus objetivos?

O que estava planeado antes desta situação era não fazer mais maratonas e apostar nos 10 000 metros, porque queria fazer o Troféu Ibérico, e dedicar-me a provas mais curtas. Quero bater o meu recorde pessoal também nos 10 000 metros, porque considero que ainda não consegui uma marca que faça jus ao que tenho trabalhado e ao que valho, portanto, era para isso que estava a treinar. Agora é preciso ver que provas vão acontecer, mas não quero por de parte os 10 000 metros, embora esteja focada na maratona.

 

Como é que se mantém a “mente sã em corpo são” no meio desta pandemia?

Com a ajuda do psicólogo da Federação [Portuguesa de Atletismo], João Lameiras. Tem sido impecável. Tem tido o cuidado de ligar para saber como estou e é como ele diz: “Na nossa vida de atleta temos de nos adaptar a várias situações que não controlamos. Temos de estar preparados para vários cenários, até porque estamos bem num dia e depois lesionamo-nos e temos de nos adaptar a tudo o que vai aparecendo. Agora é mais um desafio. É uma competição diferente.” E é isto mesmo. Tenho de olhar para Tóquio 2021 como uma oportunidade, eventualmente para me preparar melhor e arriscar mais. Como diz o velho ditado: “Quem não tem cão, caça com gato.”

 

Como é que se tem portado “o gato”?

No meu concelho [Lousada], assim que houve o primeiro caso, a autarquia fechou todos os locais públicos para nos proteger. Tenho um projeto com um grupo informal na Pista de Atletismo de Lousada, às terças e quintas, que se chama “Vem correr com a Sara Catarina Ribeiro” e suspendemos imediatamente os treinos. Assim, desde o dia 9 de março que fiquei em quarentena e, em conjunto com o meu treinador e também com o preparador físico, temos estado atentos e a adaptar os treinos numa lógica semanal ou até diária, tentando não alterar muito as rotinas, para depois não ser tão difícil voltar. Comecei a correr muito mais cedo do que o habitual, mantenho o descanso depois do almoço e, à tarde, treino em casa. Estou a aproveitar para recuperar bem e também para fazer atividades que dizemos que nunca temos tempo, como ler, ver televisão, fazer bolos…

 

Para adoçar os tempos?

Sim [risos]. Eu já cozinhava, mas era essencialmente cozinha tradicional portuguesa. Agora como tenho mais tempo estou a aproveitar para procurar outras receitas mais alternativas. E tenho feito mais doces, que é algo que normalmente não costumo fazer.

 

Além de redefinir objetivos e treinos e de ocupar o tempo livre, esta pandemia também tem imposto desafios na vida doméstica. Como é a vossa realidade em casa?

Vivo com o meu companheiro, que trabalha na área da metalurgia num grande grupo, que não fechou. A profissão dele já exige, por questões de segurança, que sejam utilizadas proteções. A empresa disponibilizou outros materiais, como desinfetantes, mas como a área de trabalho não implica contacto com colegas, não tem sido necessário termos muitos mais cuidados do que os gerais. Raramente saímos de casa e cumprimos as orientações, como a maioria das pessoas.

 

Que mensagem gostarias de deixar a todos aqueles que têm a paixão pela corrida e que tiveram de a colocar em “stand by”?

Tal como nós, atletas de alto rendimento, estamos a aproveitar para desacelerar e fazer um refresh ao corpo, que também os corredores informais façam esse recarregar de baterias para, quando for possível voltar às provas, o possam fazer com a máxima energia e superar-se.

 

 

BI

Nome: Sara Catarina Costa Pontes Ribeiro

Data de nascimento: 31 de maio de 1990

Naturalidade: Lousada

Equipa: Sporting Clube de Portugal

Treinador: Rui Ferreira

Principais títulos: Campeã de Portugal de 3000 metros em pista coberta em 2014, de corta-mato em 2018, e de estrada em 2019

Destaques noutras competições: Medalha de bronze nos 10 000 metros do Europeu de Sub-23 de 2010; dez presenças no Europeu de Corta-Mato, tendo sido 10.ª júnior em 2009 e 10.ª Sub-23 em 2012; 10.ª nos 10 000 metros do Campeonato da Europa de 2018; vice-campeã de Portugal de crosse curto em 2013, 2014 e 2015, de 5000 metros em 2011 e 2018, de 10 000 metros e de estrada em 2017 e de corta-mato em 2019

Recordes pessoais: 5000 metros - 15m51s05' (2018); 10 000 metros - 32m21s19' (2018); meia-maratona – 1h12m37s (Porto, 2019); maratona – 2h26m39s (Valência, 2019)

Hábitos de leitura: “Gosto muito de livros sobre a Segunda Guerra Mundial, principalmente sobre o Holocausto e particularmente sobre Auschwitz. Faz-nos pensar e definir melhor as nossas prioridades. Acabei de ler o Tatuador de Auschwitz e agora falaram-me na Bailarina de Auschwitz e quero muito ler.”

Filmes e séries: “Por incrível que pareça ainda não vi a Casa de Papel, mas já me disseram que vou gostar, porque enquadra-se no meu tipo de série. Vejo o CSI, o Hawai – Força Especial, enfim, gosto de tudo o que esteja relacionado com investigação criminal.”

Uma música:Ten feet tall, do Afrojack. É mexida e tem uma boa energia. Sempre que a oiço fico mais animada.”

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