Ele é lançador. Ela é velocista. Ele é capitão da equipa de atletismo do Sport Lisboa e Benfica. Ela é capitã da equipa de atletismo do Sporting Clube de Portugal. Serão Tsanko Arnaudov, recordista nacional do lançamento do peso, e Cátia Azevedo, recordista nacional dos 400 metros, a prova de que os opostos se atraem? Descubra, nesta entrevista, se, além do objetivo comum de voltarem a participar juntos nos Jogos Olímpicos, em Tóquio 2021, é muito mais o que os une do que aquilo que os separa.

 

TEXTO: Vanessa Pais (FPA)

FOTO: DR

 

Como é que é a convivência numa casa de atletas, na qual um é do Benfica, outro do Sporting, um é lançador e o outro velocista e até têm o patrocínio de marcas desportivas diferentes?

Cátia: O Tsanko e eu já vivíamos sozinhos, por isso, quando começamos a namorar criou-se desde cedo uma rotina de casal. Uns dias ficávamos numa casa, outros noutra, até que o Tsanko me propôs ir viver com ele e eu aceitei.

Tsanko: A Cátia é capitã do Sporting e eu do Benfica. Quando há competições não nos falamos uma semana antes e uma semana depois [risos]. Quando são os campeonatos nacionais ou os europeus de clubes é melhor nem falarmos.

 

Já o vosso percurso no atletismo é feito de semelhanças. Ambos começaram quase por acaso e cedo começaram a dar nas vistas. Ambos são recordistas nacionais nas respetivas especialidades e contam já com uma participação em Jogos Olímpicos [Rio 2016]. Como é que olham, não para a vossa carreira, mas para a carreira um do outro?

Tsanko: Olho com respeito. Praticamos disciplinas muito diferentes: Eu nunca senti na pele o que é correr àquela velocidade em tão pouco tempo. Por isso, só posso olhar com respeito.

Cátia: Sempre achei que era fácil “atirar pedras” [risos]. Mas agora que tive oportunidade de assistir mais de perto ao treino do Tsanko (devido à quarentena) ganhei-lhe um respeito muito grande, porque percebi que ele tem de estar superconcentrado em todos os pormenores e vi tudo o que o corpo dele tem de passar só para ter uma força extra. É um trabalho completamente diferente do meu e que exige muita paciência e resiliência. Confesso que sempre pensei que as provas de lançamento do peso seriam mais fáceis, porque têm seis tentativas, mas hoje percebo a dificuldade que deve ser ter de manter a calma, a concentração e afastar a frustração e os pensamentos negativos, durante as seis tentativas, principalmente se as coisas não estiverem a correr bem. Ser lançador não é fácil e o Tsanko já conquistou uma medalha internacional [bronze, no Campeonato da Europa de 2016, com um lançamento de 20,59 metros] e isso é algo que me enche de orgulho.

 

Além do respeito pela vida profissional um do outro, o que mais é que o recolhimento imposto por esta pandemia de COVID-19 vos ensinou?

Tsanko: Que até a coisa mais básica, como ir à praia, que é algo que gostamos muito de fazer, nos pode ser proibido. Neste momento vivemos a 200 metros dos meus pais e não lhes podemos dar um abraço. Sem dúvida que hoje valorizamos muito mais as pequenas coisas e um ao outro.  

Cátia: Acho que comecei a desfrutar mais das situações. Vivemos a vida muito depressa, na lógica do “tem de ser já e rápido”.

 

Conseguem olhar sempre para esta situação pela positiva?

Tsanko: Tentamos. Para mim foi positivo poder passar mais tempo em casa. Gosto muito de estar em casa e isso foi positivo.

Cátia: Arrumámos e mudámos quase tudo em casa. Só não deitámos as paredes abaixo [risos]. O Tsanko adora bricolage e encontra sempre forma de materializar as minhas ideias. Tem sido bom passar este tempo em casa, principalmente nesta altura em que costumamos andar sempre fora do país em estágios e competições.

Tsanko: O lado menos positivo é o de sentir falta da competição. Claro que tenho um objetivo para este período, que é o de ficar mais forte, mas sente-se sempre falta, até daqueles 15 minutos de carro no caminho para o treino, de chegar lá e cumprimentar o treinador e os colegas.

Cátia: E tivemos de adiar o sonho de ir outra vez aos Jogos Olímpicos…

 

Que impacto é que esse “adiar do sonho” teve em vocês?

Tsanko: Numa primeira instância olhamos para o adiamento dos Jogos como um desastre, porque é a grande competição do atletismo e toda a gente quer estar presente. Depois, percebemos que podemos olhar para tudo isto como uma oportunidade. Vamos ter um ano para treinar, mais tempo para ganhar força e para competir. Como tive uma lesão grave, este tempo está a ser particularmente importante para recuperar.

Cátia: Foi complicado, porque optei este ano por não fazer o estágio de enfermagem para estar mais disponível para me preparar e agora nem fiz o estágio nem há Jogos. Mas teve de ser assim. Em primeiro lugar está a segurança.

 

O curso de enfermagem fez-te olhar de forma diferente para esta pandemia?

Cátia: Sim. Desde o início que disse que devíamos ficar em casa e adotar as medidas que depois se tornaram obrigatórias. Os meus pais e até o Tsanko achavam que estava doida, mas depois viu-se que infelizmente tinha razão. Acredito que só quando existir uma vacina contra o COVID-19 é que vamos poder voltar à normalidade.

 

Como é que está a correr o “desconfinamento”?

Cátia: Esta semana fui pela primeira vez à pista, mas foi sufocante. O facto de termos de entrar com máscara deixa-nos pouco à vontade e depois paira sempre a dúvida sobre se estamos infetados. Não sei se vale a pena o risco. Para já vou continuar com os treinos como no período de recolhimento.

 

De que forma é que adaptaram o vosso treino?

Cátia: Como não podia ir para a pista, comecei a correr num descampado atrás da nossa casa, onde fazia também Fartlek, subidas. O Tsanko ia comigo muitas vezes. Em termos de ginásio, conseguimos que a Federação [Portuguesa de Atletismo] e o IPDJ nos disponibilizassem o material e começámos a treinar na garagem. A gestão de treino é um pouco diferente, mas é possível de fazer.

Tsanko: O treinador envia todas as manhãs o plano e depois eu envio-lhe o vídeo da realização dos exercícios. Quando vou fazer lançamentos para o descampado, faço-os com o treinador em videochamada.

 

Quando tudo voltar ao normal de que é que vão ter saudades?

Tsanko: Do sossego de estar em casa e de não ter sempre qualquer coisa marcada, do tempo que temos só para nós, de jogar playstation.

Cátia: De estar sempre com a nossa cadela, de acordar sem despertador, de ter tempo para ler, para ver filmes e séries, para cozinhar.

 

FARTLEK

Qual a marca da Cátia (recorde nacional) nos 400 metros ao ar livre?

Tsanko: 51,62 segundos, bateu por um centésimo o recorde que já lhe pertencia.

Qual a marca do Tsanko (recorde nacional) no lançamento do peso?

Cátia: 21,56 metros, mas não sei onde é que fez. Sei que estava a chover.

Qual foi o primeiro clube que a Cátia representou?

Tsanko: Humm. Não foi o Sporting. Chumbei [risos]. Não sei.

Cátia: Núcleo de Atletismo de Cucujães.

Qual foi o primeiro clube do Tsanko?

Cátia: Qualquer coisa da Tapada das Mercês? [risos]

Tsanko: União Recreativa e Cultural da Abrunheira.

Quantas vezes seguidas a Cátia fez uma marca abaixo dos 53 segundos nos 400 metros desde os Jogos do Rio de 2016 e até ao final desse ano?

Tsanko: Assim não vale. Vou dizer oito [acertou].

Em que competição Tsanko vez a sua primeira internacionalização?

Cátia: Em Talin? 2016?

Tsanko: Campeonato da Europa de 2011, em Talin.

Qual o resultado da Cátia nos últimos Jogos?

Tsanko: 52s40’?

Cátia: 52s38’.

Qual o resultado do Tsanko nos últimos Jogos?

Cátia: 19 e qualquer coisa?

Tsanko: 18,88 metros.

Qual o prato preferido do Tsanko?

Cátia: Alguns búlgaros que não sei fazer, mas vou dizer churrasco.

E da Cátia?

Tsanko: O assado ao fim-de-semana não pode faltar. E o arroz que eu faço.

Cátia: O arroz do Tsanko é divinal.

E os filmes preferidos de um e de outro, quais são?

Tsanko: O da Cátia é o Amigos Improváveis.

Cátia: O Tsanko gosta de filmes de ação, mas não tem um preferido. Já se for um videojogo sei que é o Call of Duty.

 

BI

Nome: Cátia Isabel da Silva Azevedo

Data de Nascimento: 9 de março de 1994

Naturalidade: Oliveira de Azeméis

Clube: Sporting Clube de Portugal (desde 2009)

Treinador: Carlos Silva (desde 2011)

Principais feitos: recordista nacional de 400 metros ao ar livre 51,62 (2016); cinco vezes campeã de Portugal de 400 metros ao ar livre e seis vezes de 400 metros em pista coberta.

 

BI

Nome: Tsanko Rosenov Arnaudov

Data de Nascimento: 14 de março de 1992

Naturalidade: Gotse Delchev, Bulgária (naturalizado português em 2010)

Clube: Sport Lisboa e Benfica (desde 2009)

Treinador: Volodymyr Zinchenko (desde 2014)

Principais feitos: recordista nacional de lançamento do peso, com 21,56 metros, marca alcançada em 2017; recordista nacional de lançamento do peso em pista coberta, com 21,27 metros, marca alcançada em 2018; medalha de bronze no Campeonato da Europa de 2016, com um lançamento de 20,59 metros, a primeira para Portugal na disciplina e que lhe valeu a atribuição da Medalha da Ordem do Mérito.