Ainda sem marca de qualificação no triplo salto para os Jogos Olímpicos de Tóquio, mas bem posicionada no ranking mundial, Susana Costa prepara-se, tal como a maioria dos atletas, para progressivamente voltar a treinar ao mais alto nível. Depois de um período de confinamento, no qual manter a forma dependeu essencialmente de “puxar pela imaginação”, tal como nos tempos do Independente e do saudoso Prof. Robert Zotko, a triplista garantiu, nesta entrevista, que agora “é trabalhar para alcançar a marca de qualificação e fazer melhor em Tóquio, em 2021, do que no Rio de Janeiro, em 2016”.

 

Texto: Vanessa Pais (FPA)

Fotos: Erik Van Leeuwen

 

Que planos tinha antes desta pandemia?

 

Estávamos a trabalhar para atingirmos a marca de qualificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio, porque apesar de estar no ranking mundial em posição de poder vir a participar, queria naturalmente fazer a marca de qualificação e conseguir garantir o apuramento direto.

 

Como é que se gere a notícia do cancelamento dos Jogos Olímpicos?

 

Foi muito difícil. Nós estávamos a tentar obter a marca o mais rápido possível. Quando surgiu o estado de emergência e o presidente do Comité Olímpico Internacional disse que deveríamos continuar a trabalhar, instalou-se o pânico, porque em casa era impossível fazer treino específico. Fiquei com uma grande ansiedade e não conseguia dormir, mas com a ajuda da minha psicóloga e dos meus treinadores, o Luís  [Mesquita] e a Teresa [Ribeiro], comecei aos poucos mentalizar-me que tinha de viver um dia de cada vez. Por isso, quando se confirmou o cancelamento, fiquei aliviada. Estava em pânico sem saber como poderia apresentar-me ao melhor nível para disputar uma competição como esta, mas com a realização dos Jogos em 2021, fiquei menos ansiosa, porque teria mais tempo e condições para me preparar.

 

Como é que adaptou o seu treino durante o confinamento?

 

Numa fase inicial trouxe para casa algum material de ginásio e os treinadores fizeram um plano adequado ao que estava disponível. No que diz respeito ao treino específico de corrida e saltos, foi improvisado. Foram poucas vezes as que fui à rua, porque vivo numa zona urbana e, apesar de ter um parque perto de casa, estava sempre com muita gente. De início as pessoas não respeitavam as recomendações de confinamento e isso deixou-me insegura para sair para treinar.

 

Esta necessidade de improvisação fez-lhe, de algum modo, lembrar o seu início no atletismo no Independente, quando se tornou vice-campeã nacional de juvenis com um salto de 1,60 metros em altura, quando não tinha sequer fasquias ou postes no clube para treinar?

 

[pausa, risos] Não estava à espera de irmos tão atrás [risos]. Lembrei-me não desse momento em específico, mas de outros semelhantes. Há alturas na nossa vida em que há situações difíceis e temos de as superar. “Quando não temos cão, caçamos com gato”. Não é o que se costuma dizer? O que tinha era um quarto com material de musculação, caixas e elásticos. Por isso, foi com isso que trabalhámos, tal como nessa altura, no Independente, em que fui para uma competição e não tinha material para treinar o salto propriamente dito, mas apenas a corrida que o antecede.

 

Essa capacidade de improviso foi uma das coisas que aprendeu com o Prof. Robert Zotko?

 

Sim, umas das muitas coisas que quem teve o privilégio de treinar com o Prof. Robert aprendeu foi essa. No início, não havia muita facilidade em obter o material necessário para os treinos e, então, O Prof. Robert inventava. Lembro-me que não tínhamos trenó [para realizar treino funcional] e ele construiu um com uma câmara de ar, que encheu de areia e atou as pontas com corda. Depois colocou a corda no cinto e treinávamos assim.

 

Mas ele incutiu-nos muito mais coisas como os cuidados que tínhamos de ter com alimentação, que era algo que, na altura, não era muito falado; e a necessidade de saber ouvir o nosso corpo, porque, como ele dizia, “temos de saber escutar o corpo e conhecê-lo, até porque em competição os treinadores têm vários atletas e não conseguem ver todos ao mesmo tempo. Têm de sentir o vosso corpo”.

 

Olhando para o que já conquistou no triplo salto, hoje já dá razão ao Prof. Robert Zotko, quando lhe dizia que ia ser uma atleta de topo na disciplina?

 

Sem dúvida [risos]. Dou-lhe muita razão. Esse início foi muito engraçado, porque eu gostava de ver o triplo salto, mas não achava que tivesse o mínimo jeito para a disciplina. Na primeira vez que competi nem cheguei à areia [risos]. Mas o Prof. Robert disse que eu tinha a fisionomia de uma saltadora de triplo e o meu treinador, na altura, o Sr. Vítor [Duarte] concordou e convenceu-me a ir para o Centro de Alto Rendimento do Jamor trabalhar com o Prof. Robert. Demorou uma época inteira a convencer-me, mas lá aceitei em troca de o Sr. Vítor assistir a alguns treinos.

 

Hoje sei que foi a decisão certa. Aprendi muita coisa e o Prof. Robert acreditou sempre muito na minha capacidade e no que eu poderia ser, muito mais do que eu. Ele via em mim uma “super-elite” e, nessa altura, tinha eu 18/20 anos, nem tinha feito um salto de 13 metros e o Prof. Robert já falava em 15 metros. Sempre me disse que tinha de trabalhar arduamente e, quando já estava integrada em Lisboa, ele partiu [emociona-se].

 

Como é que se ultrapassa uma perda como essa?

 

Fiquei devastada. O Prof. Robert tinha a fama de ser duro, mas para mim sempre foi muito querido. Tinha-o como uma referência paterna. Era a pessoa com quem passava mais tempo. Tinha muita estima e acreditava muito nele, tal como ele acreditava em mim.

 

 

Que competição a marcou mais?

 

Os Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, foram uma delas, mas não posso eleger apenas essa, porque estive três anos completamente parada devido a uma lesão e, após um ano e meio de ter regressado aos treinos, consegui marca de qualificação para o Campeonato da Europa, competição na qual consegui ultrapassar os 14 metros, ou seja, a tal marca de elite de que o Prof. Robert falava. Por isso, não foram só os Jogos que foram marcantes, a minha chegada também o foi. Fiquei muito orgulhosa não só de lá chegar, mas da prestação que consegui fazer. Não me limitei a participar, fui finalista, com uma boa marca, e isso deixou-me muito feliz.

 

Já redefiniram objetivos agora que estamos em fase de desconfinamento?

 

O objetivo agora é preparar-me para competir. Nunca deixámos de ter as nossas rotinas, mantivemos sempre os dias e horas de treino, mas agora já podemos ir para a pista e voltar ao treino específico. Por isso, estamos progressivamente a voltar ao Plano A, que é preparar-me para fazer marca de qualificação e estar no Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021 na melhor forma. Quero muito competir nos Jogos e fazer melhor do que em 2016.

 

O que é que esta pandemia lhe ensinou?

 

Nós andamos sempre a correr e esta pandemia ensinou-nos a olhar mais para nós e a concedermo-nos mais tempo. Para mim estar em casa foi um privilégio, porque nesta altura ando sempre a viajar em competições.

 

Como é que se mantém a mente sã?

 

Tendo pessoas que nos percebam. Tenho dois treinadores e uma psicóloga de excelência, que me acompanham, que me percebem e que me orientam para um pensamento positivo, porque nem sempre o consigo ter. A minha família, claro, também é muito importante.

 

Também aproveitou para treinar os dotes de cozinheira, como a maioria das pessoas?

 

Não. Eu já cozinho habitualmente. Mas o meu namorado, com quem vivo e passei este tempo em confinamento, não cozinhava muito. Então ele é que tem desenvolvido essa faceta de cozinheiro. Agora ele cozinha e eu como [risos].

 

BI

Nome completo: Susana Cristina Saíde da Costa

Naturalidade: Setúbal

Data de nacimento: 22 de setembro de 1984

Clube: Academia Fernanda Ribeiro (desde 2018)

Treinadores: Teresa Ribeiro e Luís Mesquita

Recorde pessoal no triplo salto: 14,43 metros (2019, ficando a um centímetro do recorde nacional)

 

Principais conquistas

Ex-recordista de Portugal de triplo salto em pista coberta (13,49 metros em 2007; 13,50 metros e 13,77 em 2008 e 13,94 metros em 2013);

9.º lugar na final do triplo salto dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016;

Três participações em Campeonatos do Mundo: 2015 (n/cl.), 2017 (11.ª) e 2019 (20.ª – ficou na fase de qualificação [q])

Quatro participações em Campeonatos da Europa: 2012 (13.ª q), 2014 (8.ª), 2016 (5.ª) e 2018 (11.ª);

Cinco participações em Campeonatos da Europa de pista coberta: 2007 (12.ªq), 2013 (12.ªq), 2015 (14.ªq), 2017 (7.ª) e 2019 (5.ª);

Medalha de prata no Campeonato da Europa de Seleções de 2015

Três participações nos Campeonatos Ibero-Americanos, conquistando um 6.º lugar em 2004, o ouro em 2012 e a medalha de prata em 2018

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