Duas estreias a vencer nacionais em absolutos, dois campeões do Minho, uma tarde de calor em Eiras, Coimbra, e a mesma convicção de que ainda há muito mais a conquistar. No Campeonato Nacional de Milha em Estrada, João Azevedo, de 20 anos, e Beatriz Fernandes, de 23, escreveram os primeiros títulos nacionais individuais em absolutos das suas carreiras.
Há corridas que ficam marcadas não pelo tempo cronometrado, mas pela história que contam. A milha, distância que escapa à rotina olímpica, foi o palco escolhido para duas primeiras vezes que valem muito. João Azevedo, da EA Rosa Oliveira, e Beatriz Fernandes, do Vitória SC, chegaram à linha de chegada em primeiro lugar — e chegaram a um novo patamar das suas carreiras.
“Foi um sentimento de enorme orgulho e satisfação. Tem um significado especial”, confessa João. Do outro lado, Beatriz, que participou nestes campeonatos pela primeira vez, recorda com igual emoção: “Fiquei muito feliz, era um resultado que ambicionava há bastante tempo. Depois de dois anos de altos e baixos, devido a lesões, é um título com bastante sabor.”
Preparação sem receitas especiais e o calor para todos
Nem João nem Beatriz fizeram uma preparação específica para a milha. O minhoto de Guimarães chegou à prova confiante de uma forma crescente: “A preparação foi dentro daquilo que tenho vindo a fazer ao longo do tempo, não foi nada muito específico só para a milha, mas sabia que estava num bom momento de forma.” Beatriz, natural de Joane, Famalicão, chegou a Eiras com os treinos como bússola: “Sabia que estava rápida porque os treinos indicavam isso, e sendo uma distância em que me sinto relativamente confortável decidi ir competir.”
Quanto ao calor que se fez sentir naquela tarde, a atleta do Vitória SC resumiu a filosofia de forma certeira: “Temos de estar preparados para tudo e pensar que se está calor para mim, também estará para os outros.”
Tática, posicionamento e o momento certo para atacar
A milha, como João Azevedo bem sabe, não é apenas resistência — é leitura de corrida. “É uma prova de que gosto bastante e na qual me sinto bem, apesar de ser rápida e bastante tática”, explica o atleta da EA Rosa Oliveira, que entrou com objetivos claros: “Entrei com o objetivo de lutar pela vitória nos Sub-23 e, quem sabe, também nos absolutos. Sabia que podia ser uma corrida tática e foi isso que aconteceu. Mantive-me sempre bem posicionado e senti que tinha tudo sob controlo.”
Beatriz seguiu estratégia semelhante, gerindo energia antes do momento decisivo: “Corri sempre na frente, mas mais resguardada e ataquei quando percebi que seria uma altura decisiva da prova.” Nos últimos 200 metros, quando acelerou, foi a distância que lhe respondeu: “Senti que elas estavam a ficar para trás e que se aumentasse um bocadinho o ritmo daria para a vitória, então ataquei forte e a faltar 100 metros percebi que estava completamente sozinha.”
Uma chegada sem margem… com o photo-finish como juíz
Se Beatriz cruzou a meta com autoridade, João Azevedo teve um desfecho bem mais dramático. O atleta vimaranense foi surpreendido por um adversário nas costas que o photo-finish veio esclarecer. “Sendo sincero, fui totalmente apanhado de surpresa. Não tinha mesmo noção de que vinha alguém tão perto e só mesmo no final da prova é que o percebi”, admite. O título acabou por ser seu — e a surpresa faz parte da história.
Primeiros títulos absolutos, horizontes a expandir
Ambos chegaram a este pódio com palmarés de jovens em ascensão. João Azevedo acumula títulos nacionais em Sub-20, Sub-23 e Universitários; Beatriz Fernandes tem subidas de divisão nos nacionais de clubes e lugares no pódio em absolutos. Mas uma vitória individual no escalão principal é um marco diferente — e os dois têm consciência disso.
Para o resto da temporada, João quer seguir o caminho já traçado: “Quero continuar a evoluir e a melhorar as minhas marcas e representar o meu clube da melhor forma possível a nível nacional.” Beatriz aponta no mesmo sentido coletivo e individual: “Espero ajudar o Vitória SC da melhor forma possível nos clubes e tentar bater os meus recordes pessoais.”
Dois campeões nacionais, dois primeiros títulos absolutos, um mesmo norte — literal e desportivo.
Créditos: FPA/Tiago Peixinho e Levi



